Admiro muito os textos da Fernanda Young. Li uma entrevista ontem com ela e vou colocar uma parte aqui:
Site Vya Estelar entrevista Fernanda Young
Por Angelo Medina
Vya Estelar - O que é o amor para você?
Fernanda Young - Não temer o outro, seja lá no que for, contar com o outro. A mágoa é possível, mas não deixar que a mágoa se transforme em amargura e rancor. Ainda sou assustada com as pessoas com as quais me relacionei: homens merda, borrões, aquela cultura machista. É claro que existem as exceções e as exceções são bárbaras. Eu convivo com uma há dez anos (o marido Alexandre Machado). Os homens heterossexuais precisam desenvolver mais o lado feminino pelo desejo.
Vya Estelar - Como assim?
Fernanda Young - As pessoas querem o tal do feedback e essa é uma carência que não se preenche. Feedback é ilusão. Ilusão de preencher algo que não pode ser preenchido. Não quero me assustar com os triângulos. A shakti (aspecto feminino de Deus) precisa ser trabalhada, inclusive pelos homens, e isto não tem nada ver com viadagem. O universo é feito de shakti.
Vya Estelar - Quando o assunto é amor, qual seria o denominador comum entre as pessoas? Fernanda Young - Infelizmente é a luta do ego. Sempre tem um em cima e outro embaixo. É muito comum ver os meus amigos falarem "eu estou bem e ele (a) não" e vice-versa.
Vya Estelar - Você conta que: "Não se encontra necessariamente a traição nas traições" como seria isso?
Fernanda Young - Meus personagens atuaram a partir da traição e reagiram de forma adulta à traição. A traição é vista com objetividade. Não deve ser observada com tanta ira, com tanto ódio. As relações duradouras têm a possibilidade de trabalhar sob esse paradigma. É muito bom perder as ilusões.
Vya Estelar - O que são os novos paradigmas?
Fernanda Young - O oposto do que se vê por aí. Os ritmos estão muito hedonistas, falta paciência. As pessoas terminam os relacionamentos porque querem grandes excitações. Sou a favor da unidade familiar, principalmente se a crianças estiverem envolvidas, mas desde que seja suportável. Crianças filhos de pais separados se tornam emocionalmente deficientes. Deve-se olhar para o casamento e encontrar o perdão, abrir mão... Traição é uma merda. E não pela traição. O ser humano não quer dividir o seu amor. O amor requer paciência e um tempo filosófico para você se questionar. Não é o caminho do maior peito, do botox ou então ficar trocando de paixão pelo resto da vida. Se você quer que ele dure (o amor) tem que perdoar sempre, a não ser em caso de abuso e agressividade.
Vya Estelar - O que você acha que pensa as pessoas que traem?
Fernanda Young - Precisam de um feedback novo, querem um olhar novo. É neste sentido que a traição não se torna, de fato, uma traição.
Vya Estelar - "A matemática do sexo", os problemas desta "matéria", tem solução?
Fernanda Young - Não. O amor não é uma ciência exata e nem o sexo. Trata-se de um olhar de exceção, que é o olhar de um artista. O "amor" é egocêntrico. Sexo é maravilhoso, mas é rápido demais. Sexo também é ridículo em função da gula instintiva e sobre sua discussão no matrimônio. Sexo aborrece a todo mundo, fora as pessoas que estão fazendo naquele momento. Fica o desejo de mais, de um instinto humano real necessário e ridículo, assim como casar.
Vya Estelar - Quando você fala no ímpar dos pares. Seria o individualismo nas relações ou teria algo mais?
Fernanda Young - Me refiro ao individualismo e aos triângulos, onde sempre fica alguém de fora. O livro é cruel porque os personagens são cruéis, verossímeis e psiquicamente bem construídos. O que fizeram moralmente foi perfeito. O mundo não gira em torno do prazer, de saciar a fome. Não é só isso. O mais legal é estar com a pessoa e sobreviver ao que vier. O verdadeiro amor não quer ferir. Quero continuar amando sem sonhos utópicos.
Vya Estelar - Desconstrução do amor para que o casal construa uma futura história? Como seria isso?
Fernanda Young - Os personagens trabalham sobre esses *aspectos sagrados indianos, de pensar no olhar do ser construído e reconstruído, tudo neste labirinto. A ótica dessas deidades hindus, destruição, reconstrução e manutenção. *A divina trindade hindu é formado por Shiva (responsável pela destruição do mal ou ilusões que afligem a mente), por Vishnu (responsável pela manutenção do Universo) e por Brahma (responsável pela sua criação).
Vya Estelar - Por que seu livro se chama "Aritmética"?
Fernanda Young - É um nome que se refere à América e ao personagem do livro também. Embora os encontros no livro sejam *em progressão geométrica, teria aí no nome "Aritmética" um contraponto de deboche, mais um deboche dele a respeito dela. Refere-se ao labirintos de um jogo no decorrer da minha literatura, refere-se à precisão das palavras, aos personagens que a meu ver foram psiquicamente e milimetricamente bem construídos, à precisão do ritmo da trama. Enfim, possui vários sentidos. *Os protagonistas do livro América e João Dias, depois do primeiro dia juntos, estabeleceram a regra de um jogo que viverão por toda a vida: o segundo encontro aconteceria um mês depois; o terceiro dali a dois e assim sucessivamente.
Vya Estelar - Por que o triângulo invertido na capa do livro?
Fernanda Young - É o pubis.
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